D. Estêvão Bettencourt, OSB, e as calças femininas

segunda-feira, março 08, 2010

Vez por outra, algumas mulheres cristãs, católicas geralmente, nos escrevem questionando sobre o uso de calças ser lícito ou não. Invocam a Bíblia e até o Magistério dos Papas e do Cardeal Siri, como condenando o uso das calças pelas mulheres.

Ora, se é verdade que a mulher deve usar roupa de mulher e que o uso de roupa masculina por parte dela é pecado, segundo a Bíblia e o Magistério, não é menos que o critério que determina o que é roupa de mulher se encontra na cultura. Noutros termos: sim, mulher usa roupa de mulher e homem roupa de homem, mas o conceito de "roupa de mulher" e "roupa de homem" varia conforme a época, a cultura, o país, etc. A palavra do Cardeal Siri não fica invalidada, já que seu ensino é perene, mas determinar se calça ou saia é um vestuário feminino escapa ao poder da Igreja, não é matéria de definição magisterial (nem poderia ser). O Cardeal e a Bíblia não condenam a calça em uma mulher, e sim a roupa masculina em uma mulher, e a roupa feminina ou masculina varia no tempo e no espaço.

Para que não fique nenhuma dúvida, recebi da Maite Tosta o seguinte texto do grande teólogo Dom Estêvão Bettencourt, OSB, em sua respeitadíssima "Pergunte e Responderemos":

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 257 – Ano 1981 – Pág. 271

Em síntese: Um estudo detido e objetivo de Dt 22, 5 mostra que o preceito de Moisés não tem em mira simplesmente o uso de calças compridas por parte de mulheres, mas, sim, os abusos que este tipo de traje ocasionava nos cultos pagãos; favorecia o deboche e outros vícios inspirados pela mentalidade de povos pré-cristãos. Por conseguinte, não se pode condenar a moda feminina das calças compridas em nome da Escritura Sagrada. Tal tipo de indumentária tornou-se algo de natural e geralmente aceito, sem chamar a atenção do público, a não ser que as próprias calças, por sua índole “colante”, sejam feitas para provocar os instintos sexuais.

Comentário: O uso de calças compridas por pessoas do sexo feminino tem sido impugnado em nome de um texto do Deuteronômio, freqüentemente aduzido sem procura exata do respectivo significado. Eis por que passamos a examinar tal secção e o problema citado.

De 22,5: “A mulher não trajará vestes masculinas, e o homem não usará vestes femininas. Quem assim proceder, será abominável ao Senhor teu Deus”.

1. Este texto há de ser entendido como qualquer outra passagem bíblica, dentro do respectivo contexto histórico. Sabe-se que a Bíblia oferece a Palavra de Deus “encarnada” dentro da linguagem e da cultura dos homens que Deus quis assumir como hagiógrafos.

Ora, ao procurar reconstituir o quadro histórico e cultural do versículo acima, os comentadores unanimemente afirmam que

1) o texto não tem em mira condenar o uso, como tal, de calças compridas por parte das mulheres, como se esse uso, por si mesmo, fosse provocação ao pecado;

2) nem tem em vista defender diretamente as diferenças naturais existentes entre o sexo masculino e o feminino, mas

3) foi redigido em vista de certas práticas usuais nos cultos pagãos da Síria e de Canaã, práticas que davam ocasião a ações grosseiras e imorais.

Vejamos de mais perto este último tópico.

2. É notório o fato de que entre os gentios se praticava a prostituição sagrada. Chamava-se hierodula (servidora do santuário) a pessoa, às vezes de sexo masculino, mais freqüentemente de sexo feminino, que se prestava à prostituição sagrada nos templos; tanto o homossexualismo quanto o heterossexualismo podiam então ser cultivados; em conseqüência, não era rara a figura do (a) travesti(e). – A prostituição sagrada existia nos santuários egípcios e mesopotâmicos de Isis e Istar; principalmente, porém, nos templos de Astarté em Canaã (= Palestina). Sob a influência dos cananeus (cf. Nm 25,1-18), o mal penetrou também no culto israelita. Compreende-se que, neste contexto histórico e geográfico, a Lei de Moisés proibisse tal abuso e excluísse das ofertas feitas no templo do Senhor o salário de uma prostituta, que era também chamado “salário de cão” (cf. Dt 23,17s).

Na época de Jeroboão (931-910) o abuso aumentou notavelmente (cf. 1Rs 14,24), mas Asá (911-870) e Josafá (870-848) expulsaram as hierodulas da terra de Israel (cf. 1Rs 15,12; 22,47). De novo as hierodulas apareceram em Israel sob Manassés (687-642) e Amon (642-640); todavia Josias (640-601) mandou demolir as suas habitações (cf. 2Rs 23,7).

Ainda a respeito do uso de vestes ou insígnias masculinas por parte de mulheres, note-se o seguinte: Segundo Macróbio (séc. V d.C.), em Saturnalia 1. III, VIII, havia em Chipre uma estátua de Vênus, barbatum corpore, sed veste muliebri, cum sceptro ac statura virili (dotada de barba, de cetro e de estatura viril, mas vestida como masculina e feminina, e à qual ofereciam sacrifícios homens vestidos como mulheres e mulheres vestidas como homens. Ver também Servus (+ fim do séc. IV), In Aencidam II 632; Apuleio (+ 185 d.C.), Metamorphoses VIII 24 s.

Por conseguinte, não pode restar dúvida a respeito do caráter circunstancial e delimitado (geográfica e historicamente) da proibição de Dt 22,5.

3. Passando ao plano da Teologia Moral propriamente dita, pode-se ainda observar quanto segue:

Uma veste deverá ser tida como imoral se provocadora ou excitante de concupiscência: assim toda roupa que deixe descobertas ou faça transparecer ou ponha em evidência partes sexuais ou erógenas do corpo humano, torna-se, via de regra, excitante. Por isto deve ser banida como imodesta e imoral. Verifica-se, porém, que o uso de calças compridas hoje em dia por parte das mulheres não costuma excitar nem seduzir para o mal. Tornou-se algo de natural e geralmente aceito, sem chamar a atenção do público (a não ser que as próprias calças, por sua índole “colante”, sejam feitas para provocar os instintos sexuais). Eis por que não se vê razão para condenar o uso de calças compridas por pessoas do sexo feminino em nossos dias, de mais a mais que tal traje é muitas vezes mais decente do que certos vestidos ou saias.

A propósito:

PIROT-CLAMER, La Sainte Bible. Tome II. Paris 1946..

VAN DEN BORN, A., Dicionário Enciclopédico da Bíblia. Petrópolis 1971. Verbetes “Prostituição” e “Hierodulas”.

Não se tente opor D. Estêvão ao Cardeal Siri. Eles não discordam. O ilustre Purpurado não condena, em si mesmo, a calça feminina, mas a roupa masculina usada por mulher. Ora, em sua época, o uso das calças era, ao menos em sua região, um costume quase que exclusivamente masculino e as próprias calças femininas que apareciam tinham um corte masculino. Se naquele sociedade, a calça era uma roupa exclusivamente masculina, o fato de a mulher usá-la importava em violação do mandamento da modéstia e do preceito bíblico.

Tal, entretanto, não se pode dizer dos dias de hoje, em que o uso de calças pelas mulheres é amplamente disseminado no Ocidente, possuindo as calças cortes bem femininos. Um homem, se é homem mesmo, não usaria uma calça feminina sem ser estranhado. Nota-se bem a distinção entre uma calça feminina e uma masculina, o que, por si, refuta qualquer eventual argumento de "mal da moda unissex". Não há uso unissex: as calças são diferentes, claramente diferentes.

Outros posts sobre o uso de calças estão aqui:



E, enfim, um texto meu do Blog VS: Mulher só pode usar saia?

Outros virão!

POSTS RECOMENDADOS

11 comentários

  1. Gostei. Lutemos pela modéstia. Resgatemos o pudor. Mas saibamos, sem puritanismo, separar o essencial do acidental.

    Deus condena que as mulheres usem roupas de homem. Mas quem dá o significado de "roupas de homem", senão o ambiente, a época, as circunstâncias culturais?

    Já li o texto do Cardeal Siri, e, como a Aline e a Maite, não vi nenhuma condenação MATERIAL às calças. Ele condena o uso de calças pelas mulheres porque, na época, não era próprio das mulheres isso. Mas o ambiente de hoje e as calças de hoje não permitem que vejamos nas calças um objeto de condenação por parte do grande Cardeal.

    Não se está impondo que a mulher use calça, mas impedindo que algumas, mais radicais, imponham, elas, sim, que só se use saia e vestido. Isso é algo que sai da cabeça delas, não do Magistério da Igreja.

    A saia é linda nas mulheres, e eu vejo a Aline sempre defendendo que se resgate esse importante, feminino e modesto vestuário, mas não a custo de condenar as calças.

    Modéstia, sim. Extremismo, não. Impor suas conclusões pessoais como se ensinos da Igreja fossem, menos ainda!

    ResponderExcluir
  2. Acredito piamente, inclusive, que as calças, sendo modestas, podem guardar o pudor e a castidade bem mais que saias imodestas.

    Como diz meu amigo Rafael Delega, nem mais nem menos, mas lado a lado com a Igreja.

    ResponderExcluir
  3. Faço das minhas palavras as do anônimo acima.

    ResponderExcluir
  4. Que confortador Aline...Acabo de publicar no meu blog um texto que fala sobre "Obediência e Modéstia", dizendo que devo obedecer à Igreja sim,mas a minha diretora espiritual e confessor também.É óbvio! E eles estão satisfeitos comigo.Agora, cá pra nós, tem gente que fica eternamente discutindo barra de saia e centímetros a mais ou a menos de blusa, achando que estão com a verdade, que é a Igreja que fala, quando tudo vem da cabeça deles.Condenam a tudo e a todos,como se só,somente eles estivessem certos...ai,tem hora que dá preguiça disso viu...Tenho calças sim,uso e usarei calças sim,tem horas que é ´preciso usar calças,já viu praticar esporte de saias?Nunca vi. Sei que não estou ofendendo a Deus com isso.Estarei ofendendo a Deus se ficar criticando os irmãos sem motivo algum,me achando melhor que os outros,só porque tenho centímetros a mais ou a menos numa roupa.
    Desculpe o desabafo aí...!É pq tem gente que acha que é dona de Deus e isso me cansa.
    Peço licença pra colocar no meu blog este texto.
    Paz e Bem.

    ResponderExcluir
  5. De onde a sra. tirou isto aqui: "Ora, em sua época, o uso das calças era, ao menos em sua região, um costume quase que exclusivamente masculino e as próprias calças femininas que apareciam tinham um corte masculino."? Por favor, gostaria de receber a pesquisa da sra. sobre a época em que viveu o cardeal, as condições do país e estado em que ele atuou. Seria muito interessante, até a nível de debate intelectual, que a sra. começasse a embasar suas argumentações em dados concretos.

    ResponderExcluir
  6. Prezado Matheus, o Cardeal Siri era arcebispo de Gênova, Itália.

    De acordo com o texto em http://almanaque.folha.uol.com.br/anos50.htm
    a década de 50 foi marcada pela feminilidade, e as calças só estavam se popularizando nos EUA, através do cinema. Somente nos anos 60 a calça feminina começa a se popularizar mundialmente, conforme texto em http://almanaque.folha.uol.com.br/anos60.htm
    O Jeans ainda era tecido duro, e as chamadas calças femininas eram em corte apertado, ainda de denim um tanto duro: http://tribojeans.blogspot.com/2008/08/histria-da-cala-jeans-feminina-parte-2.html
    Durante a década de 60 é que novas técnicas de lavagem foram surgindo.
    Espero ter contribuído.

    ResponderExcluir
  7. Para começo de conversa, meus posts não são tirados "da minha cabeça", mas fruto de estudos. Se desejas um trabalho com datas, números e apontamentos, seria interessante recorrer a um trabalho de pesquisa como em livros, monografias e etc. É um artigo de opinião EMBASADO em contexto histórico e doutrina social da Igreja, não se remete a um frio estudo numérico.
    Contudo, se desejas saber mais, em uma rápida visitinha ao nosso amigo google encontrarás uma reportagem da conceituada revista elle da editora abril em q fala sob o surgimento das calças: http://elle.abril.com.br/moda/pecas-basicas/historia-das-calcas-432613.shtml?page=page2

    Época vivida pelo Cardeal em tela: http://pt.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Siri

    Em Cristo,
    Aline Brodbeck

    ResponderExcluir
  8. Maite: obrigado pelas informações. Você não acha curioso que o cinema tenha feito tão grande propaganda do uso de calças? Sabemos que o cinema hollywoodiano sempre foi bancado por grupos revolucionários, e por isso é bem provável que a exploração desta peça de roupas não tinha um caráter neutro.
    Aline: Não entendi o motivo de tanto escandalo. Não pedi nenhum absurdo. Só pedi para esclarecer uma afirmação que você mesma fez. Se não tem capacidade para tal, assuma suas debilidades e desista... o que não dá é pra ficar ofendida a cada pergunta que seja feita para você.
    Uma coisa interessante: o cardeal siri foi cardeal até 1987(!)... curioso ele não ter escrito nenhum texto posterior se retratando ou explicando que se tratava de tais e tais tipos de calças e não da calça em geral.
    Você diz que faz estudo "EMBASADO em contexto histórico e doutrina social da Igreja". Pergunto: você não quis dizer, doutrina moral ao invés de social? Me parece que você ainda não sabe bem em que campo está trabalhando.

    ResponderExcluir
  9. Matheus,

    Sempre pronto a atacar, a julgar, e não sabe relevar um erro de digitação comum a qualquer pessoa... É óbvio que a autora do blog deve ter se enganado por um lapso, trocando moral por social. É um engano da mente, passível de ocorrer com qualquer um. Mas quando nos falta caridade, não conseguimos ver o lado positivo, não nos colocamos no lugar do outro, não percebemos o quanto somos duros e mesquinhos. E lá vem os "você ainda não sabe bem em que campo está trabalhando". É claro que ela sabe, camarada! Só teve um erro, certamente pensando uma coisa e escrevendo outra!

    "Assumir debilidades"... Meu Deus, quanto julgamento, quanta dureza.

    Por que alguns não olham pro seu próprio rabo antes de olhar pro dos outros?

    Se usar calças fosse pecado, Santa Gianna Beretta Mola não teria sido canonizada.

    As pessoas não precisam se retratar de cada ponto de seu vasto ensino. Se um dia, um pregador tal fez uma referência "x" para tal situação particular, não precisa, 30 anos depois, falar de novo sobre isso, dando nova explicação, porque mudou a situação. Isso é pedantismo! Além disso, o Cardeal não tinha do que se retratar: mostrou a verdade perene de que as mulheres não deveriam se vestir de roupa de homem, e, conforme seu contexto, ilustrou com o exemplo das calças, que, na época, eram usadas apenas por homens.

    Não sei pq tanta neura com isso?

    Francamente...

    Celso

    ResponderExcluir
  10. Caro sr. Matheus,

    Em momento nenhum pensei estar sendo agressiva ou dura em minhas palavras. Desculpe se o senhor se sentiu ofendido com meu jeito de colocar as coisas. Pensei estar sendo apenas rápida e objetiva, uma vez que estou meio sem tempo para responder.

    Logo, não houve escândalo algum em meu ponto de vista. Mais uma vez perdão se feri sua sensibilidade. No que tange àquilo que realmente importa, espero ter respondido ao senhor e retirado suas dúvidas.

    Obrigada, Celso, por ter percebido meu engano.

    ResponderExcluir
  11. Caro Celso,
    eu falei sobre Santa Gianna no meu blog, que usava calças e foi canonizada. E foi um escândalo geral! Um pecado absurdo! Uma imoralidade! Chegaram até a dizer que "nem nenhuma santa deve ser parâmetro para nós, somente Nossa Senhora"...Ai quanta falta de formação sobre a fé católica!As santas são exemplos para nós,e justamente porque são exemplo é que foram canonizadas.Quando a Igreja o faz, mostra que "esta mulher é exemplo de vida a ser seguido por todas as católicas".
    Mas,se querem só Nossa Senhora de exemplo,espero que consigam chegar lá.Desejo a pessoas assim boa sorte.
    A discussão sobre as calças é fonte de boas risadas para mim.Tem gente que não entende que o problema não está nas calças,mas na imoralidade geral que paira sobre este mundo. E que deveria ser preocupação de todos os católicos.
    Paz e Bem a todos!

    ResponderExcluir

Modest Fashion Network

Curta no Facebook

Moda e modéstia

Estou no Instagram @aline.brodbeck