9 sinais de que sua concepção de modéstia no vestir está equivocada

segunda-feira, outubro 27, 2014

Escrevi no Quem Sou aqui no blog:


Sempre gostei de moda e me incomodava o jeito com a vulgaridade e a falta de decência nas vestimentas tomaram conta das passarelas e de nosso dia a dia, demonstrando uma incompreensão quanto à dignidade da mulher. Como dizia o Papa Pio XII, muitas mulheres "perderam o próprio conceito de perigo, o instinto da modéstia."  Mesmo quando eu não era católica, esse problema da sociedade atual já me afetava e eu me sentia agredida com a excessiva sexualização das roupas.
Por outro lado, o tema da modéstia pode ser prejudicado por uma visão que não leva em conta a contemporaneidade, ficar preso às circunstâncias de um tempo que não existe mais, e criar um recato caricato.
"Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque ambos os vocábulos tem a mesma etimologia; do latim 'modus', quer dizer, a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo." (Pio XII)
O blog surgiu a partir de minhas reflexões sobre o estado da feminilidade atual, e sobre a necessidade de ser modesta sem ser brega ou antiquada, e ser moderna e fashion sem ser escrava das tendências e do que a indústria da moda nos empurra.

Trabalho com a formação da feminilidade e escrevendo sobre moda como uma de suas expressões desde 2006, na época do finado Orkut. Em 2008 comecei o blog. Não sou melhor do que ninguém e falta muita coisa para eu estudar e aprender, mas alguma experiência eu já tenho. E puder perceber, nesses anos todos, alguns equívocos quando se fala de moda feminina e cristianismo.






Listo abaixo os que considero mais presentes nas discussões atuais, quer na internet, nas redes sociais e nos blogs, quer no dia a dia das paróquias e movimentos cristãos. São nove sinais de que a sua concepção de modéstia pode não ser tão espiritualmente saudável assim.




1. Entendimento de que só o interior importa

Essa é clássica. E esse equívoco se expressa por diferentes frases como essas ou semelhantes. "Só Deus pode me julgar." "Deus vê apenas o coração." "Minhas roupas não significam nada. O que importa é a alma."

O problema é que, embora o interior seja realmente mais importa, o exterior é um reflexo daquele. A alma é prioridade, mas o ser humano não é um espírito que usa o corpo como se fosse uma roupa. Essa concepção é gnóstica e espírita. O ser humano é uma unidade. Embora corpo e alma sejam diferentes, embora muitas vezes a carne e o espírito lutem entre si, o homem não é uma alma com um corpo: é uma alma e um corpo unidos. Tanto que, quando Jesus voltar, recuperaremos nosso corpo, transformado em glorioso, na ressurreição dos mortos.

O interior se manifesta no exterior.

Jesus mesmo no diz: "O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio." (Lc 6,45) O exterior, pois, deve ser reflexo do interior, e não nos adianta nada cultivar apenas o interior, desdenhando do exterior. O homem é alma unida a um corpo. Claro que a alma é mais importante, claro que esta é a forma, claro que ela é que nos garante a semelhança com Deus, e dela procedem os afetos e as intelecções. Não olvidemos, todavia, que embora menos importante, o corpo é também criação de Deus. Negar isso é cair na gnose, é achar que o corpo é maldito, é ruim. O corpo precisa submeter-se à alma, mas não ser negado ou extinto. Até mesmo o Credo que rezamos em todas as Missas diz que no fim do mundo haverá a ressurreição da carne: não é só a alma que será salva, o corpo também. O homem ressuscitado unirá sua alma salva ao corpo tornado glorioso. A busca da santidade, questão profundamente interior, deve se manifestar no exterior, mormente em nossas vestes, que passam sempre uma mensagem aos outros.

A roupa modesta reflete o Cristo com o qual fomos revestidos no Batismo. De fato, com o pecado de nossos primeiros pais, ficamos nus, mas Jesus nos deu novas "vestes" espirituais: a graça. E essa graça, que nos é dada nos sacramentos, primeiramente no Batismo, deve se refletir em tudo em nossa vida. Ora, queremos símbolo mais eloquente da "veste" da graça do que a veste física? A roupa que protege o corpo sinalizando a graça que protege a alma? Aliás, é interessante observar que o próprio rito do Batismo prevê a entrega de uma veste branca, como símbolo da pureza. "N., és já uma nova criatura, e foste revestido de Cristo. Que esta veste branca seja símbolo de sua dignidade de cristão. Ajudado pela palavra e pelo exemplo dos teus, conserve-a sem mancha até a vida eterna." (Ritual Romano. Rito do Batismo das Crianças)

Sua roupa passa uma mensagem. Esquecer-se disso, achando que só o interior é o que conta, é arriscado para a sua alma e para as dos demais que você convivem. Uma alma realmente pura refletirá a pureza em todos os seus atos e também nas suas vestimentas. Ainda que só o interior importasse, que interior tão puro é esse que não se incomoda de levar os demais ao pecado ou de passar uma mensagem terrível sobre si?

"Não ande por ai mandando mensagens de que seu corpo é a melhor parte de você - implicando que seu coração, seus pensamentos e sua alma não sejam importantes. Ao invés disso, desperte com a sua modéstia, o desejo de conhecerem-na melhor." (Crystalina Evert)

A atriz que interpretou Hermione em "Harry Potter" já se perguntava: "O que há de sexy em dizer 'eu estou aqui com meus seios para fora e uma saia curta, dê uma olhada em tudo o que tenho'?" (Emma Watson)



Atentemos à mensagem que nossas roupas passam. É importante que não sejamos desleixadas, isto é, que sejamos elegantes. Mas é ainda mais importante que não sejamos imodestas, isto é, que observemos o pudor.

À mulher graciosa e fiel se lhe pedem duas coisas na atenção ao que veste: que esteja elegante e que esteja modesta. É possível estar elegante, mas imodesta, como brega, porém modesta. E também se pode estar brega (ou inadequadamente vestida para a ocasião) e imodesta: e a combinação dessas duas coisas torna a mulher vulgar. Somos chamadas, todavia, como leigas no mundo, geralmente casadas ou em busca de matrimônio, a combinar não a breguice com a imodéstia, nem a atentar apenas para a elegância ou só para a modéstia. Nosso desafio é a elegância modesta, o estilo com o pudor, a moda com o recato. E nossas roupas vão dizer, inexoravelmente, o que e quem somos.

A mulher católica é chamada a mostrar ao mundo todo que a virtude do pudor não é desculpa para andar desleixada. Modéstia não é dessaranjo nas vestimentas. É possível conciliar a modéstia com a elegância, o pudor com a beleza dos trajes, ser casta e atraente. Se der mais trabalho, isso lhe será ocasião de exercitar a disciplina e a mortificação.

Pio XI, que institui a festa em 1925, nos ensina na Encíclica Quas Primas, pela qual instituiu a festa de Cristo Rei, ser "necessário que Cristo (...) reine no corpo e em seus membros, que, como instrumentos, devem servir para a interna santificação da alma." (Papa Pio XI. Encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, nº 34)

Nosso apostolado pela modéstia, tanto nas palestras, no blog, nas redes sociais, sempre procurou transmitir essa idéia. Nossos corpos devem ser protegidos e honrados Cristo neles reinando. Não como ódio ao corpo, pois sabemos que um dia ele ressuscitará e a Igreja em que cremos é católica, não cátara, mas por preservarmos as justas hierarquias: o corpo é importante, mas está à serviço da alma!

Brademos como os cristeros mexicanos: "¡Viva Cristo Rey!" Não só na Igreja, não só na alma, mas na sociedade e nos nossos corpos. Sejam eles santificados pelo nosso pudor e por cobrir aquilo que deve ser coberto!

Se temos um tesouro, não saímos anunciando para todos, não é mesmo? Guardemos o tesouro de nosso corpo, no qual Cristo deve reinar, pela virtude da modéstia, vigilante poderosa da própria castidade e da alheia!

É triste que se fale tanto da modéstia das evangélicas e das judias, como se as católicas não procurassem essa virtude, como se as católicas pudessem se vestir de qualquer jeito, não atentassem ao pudor. É velha generalização que parece indicar que católico é qualquer um, mesmo que não viva sua fé, não se comporte como tal, não desse importância a, por exemplo, se vestir sem desagradar a Deus.

Isso, por um lado, é preciso constatar, origina-se no descuido que muitas moças e senhoras católicas têm, nos últimos anos, para com suas roupas. Realmente, a maioria não está se vestindo com pudor, como convém a uma católica. Todavia, não acho que por conta do erro de várias, deva-se ignorar que católicas buscam, sim, a modéstia no vestir, como se só evangélicas e judias é que "se ligassem" no vestuário recatado.

Vista-se de acordo com sua dignidade!

2. Fuga de qualquer responsabilidade no pecado contra a pureza praticado pelos homens

"Certamente, uma mulher que veste roupa imoral pode condenar-se. E pode condenar-se, quer pelo pecado que comete ela mesma, quer por que causa a condenação de outras pessoas." (São João Eudes) 


Muitas querem um cavalheiro, mas não se comportam como uma dama. Desejam ser respeitadas, mas não se dão ao respeito. Almejam valorização, mas são as primeiras a se vulgarizar, banalizando beijos e afetos, e deixando de cobrir o que de mais precioso possui em seu corpo. Protestam não serem objetos sexuais, contra o machismo, e paradoxalmente não percebem que as roupas que usam (ou a falta delas) denunciam exatamente o que evitam ser. "As mulheres têm poder. Pela maneira com que nos vestimos, pela maneira com que dançamos, e pela maneira com que nos comportamos, podemos convidar um homem a ser um cavalheiro ou a agir como um animal. (...) Para quem tem a coragem suficiente de preferir ser amada por um só, a modéstia é um convite silencioso para que os rapazes sejam homens o suficiente para conquistar nossos corações. É um convite aos rapazes, para que vejam que há muito mais em nós que somente nossos corpos. É por isso que a modéstia é chamada a 'guardiã do amor'. Sem ter que dizer uma só palavra, ela estabelece o padrão do respeito. Mas nós nunca conseguiremos convencer um homem de nossa dignidade sem antes convercermos a nós mesmas." (Crystalina Evert, Pure Womanhood, San Diego, Ed. Catholic Answers, 2008, trad. Daniel Pinheiro) O narcisismo, o hedonismo, a permissividade dos ambientes e costumes, o entendimento absolutamente equivocado do real conceito de liberdade, ultrapassa os valores morais, ignora a ética, escraviza a alma da mulher pela exposição excessiva de seu corpo. A seminudez da mulher atual, o “não ver nada demais” em roupas extremamente curtas, em decotes avantajados, em mensagens claramente sexuais, fere de morte a dignidade da mulher, pela qual a própria cultura atual – que incentiva aqueles comportamentos – diz ser defensora."Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que recebestes de Deus, e que não vos pertenceis? (...) Glorificai, portanto, a Deus no vosso corpo." (1Cor 6,19-20)


Mantenha altos não apenas seus saltos, mas seus padrões. Emma Watson diz: "Quando menos você revelar, mais as pessoas podem se perguntar." E é verdade! A modéstia e o pudor podem cativar mais, podem atrair mais (olhares decentes e relacionamentos duradouros e sérios), podem ser mais sedutores do que adotar a seminudez atual.

Dirige-se à mulher imodesta um grande Padre da Igreja do Oriente: "estás aumentando enormemente o fogo contra ti mesma, pois excitas os olhares dos jovens, arrasta os olhos dos licenciosos e cria perfeitos adúlteros, e com isto te faz responsável pela ruína de todos eles." (São João Crisóstomo, Catequeses Batismais, V,37; +34-38)

3. Negação da importância da moda ou da modéstia

A origem da palavra "moda" é a mesma do verbete "modéstia", como nos ensina um Papa de veneranda memória. "Moda e modéstia deveriam caminhar juntas como duas irmãs, porque ambos os vocábulos tem a mesma etimologia; do latim 'modus', quer dizer, a reta medida, além e aquém da qual não se pode encontrar o justo." (Pio XII) Nesse sentido, a moda será, no mais das vezes, neutra, apresentando-se pecaminosa quando configurar ocasião de pecado para si ou para o outro – levando ao pecado contra a castidade, por pensamentos e olhares..

"O vestido, além de responder a uma necessidade natural de cobrir o corpo, é também uma manifestação da cultura de um povo, e mediante a moda podemos adivinhar a sensibilidade de uma época e a sua visão do homem." (María Jesús Prieto López)

Engana-se quem acha que a moda é fútil por si só. Quando falamos de moda e elegância, ainda mais com a aplicação a partir da modéstia, estamos, sim, falando de coisas de alta importância. "A elegância não é sobre a roupa, mas sobre a maneira como você a usa." (Honoré de Balzac)

Falar de moda e modéstia é falar da mulher, da criação de Deus, da antropologia filosófica e teológica, do comportamento humano, da moral, da ética, da pureza. É celebrar o estilo e a virtude. É pregar que a feminilidade é receptiva, e todo o universo psicológico da mulher se expressa pelo que ela veste. É saber que ser mulher é um privilégio e uma responsabilidade.

A verdadeira elegância vem de dentro e o estilo reflete quem você é. A elegância, se for meramente externa, é uma corrupção da verdadeira. É uma deterioração, uma distorção da legítima nobreza da alma, pois não se move pela caridade, não brota do espírito, não se manifesta no exterior como um sinal do interior: é o externo pelo externo, uma elegância puramente carnal.

Um exemplo disso é a França absolutista: "A alta sociedade francesa do século XVIII foi, entre muitos outros, um trágico exemplo disso. Nunca uma sociedade foi mais refinada, mais elegante, mais brilhante, mais fascinante. Os mais variados prazeres do espírito, uma intensa cultura intelectual, uma arte finíssima de agradar, uma requintada delicadeza de maneiras e de linguagem, dominavam aquela sociedade externamente tão cortês e amável, mas na qual tudo – livros, contos, figuras, alfaias, vestidos, penteados – convidava a uma sensualidade que penetrava nas veias e nos corações, e na qual a própria infidelidade conjugal quase já não surpreendia nem escandalizava. Essa sociedade trabalhava assim pela sua própria decadência e corria para o abismo cavado pelas suas próprias mãos." (Pio XII. Alocução ao Patriciado e à Nobreza Romana, em 1945, in Discorsi e Radiomessaggi di Sua Santità Pio XII, Tipografia Poliglotta Vaticana, 14/1/1945, pp. 276-277)

Pregar a modéstia e a elegância, e ter uma visão positiva de certa moda, é dizer às mulheres que elas devem se vestir de acordo com a sua dignidade.

E isso não é futilidade!



4. Dress code católico

Embora católicas devam, sim, cuidar do modo como se vestem, devam, sim, atentar ao pudor, ao recato, à modéstia, devam, sim, vestir-se sem desagradar a Deus, devam, sim, evitar a moda mundana, elas não seguem um "padrão rígido", uma "lista do que pode e do que não-pode". A ética de alguns grupos cristãos modernos, na maioria dos casos, é puritana (no sentido moderno e que extrapola o próprio puritanismo dos primeiros calvinistas) ou, em algumas igrejas, feita por "usos e costumes".

Católicas deveriam buscar a modéstia – e meu principal apostolado tem isso como um de seus objetivos –, mas sem aquela "neura" por medir centímetros ou procurar SEMPRE enquadrar uma determinada roupa no rol das peças proibidas. Claro, algumas vestes são absolutamente inadequadas, pela impossibilidade de adaptá-las a um modo mais recatado, ou por não ficar modesta em nenhum tipo de corpo. Em geral, porém, a católica bem formada sabe que, ao mesmo tempo, deve ocupar-se da virtude do pudor e do recato, e igualmente raciocinar por princípios e não por "listas".

Ora, se é verdade que não há um "padrão católico", um "catholic dress code", é também verdade, por outro lado, que as católicas, como as evangélicas e judias, prestam também atenção em formas, decotes e comprimentos! Não para analisar os milímetros, não para condenar todo e qualquer tipo de decote, mas prestam atenção, sim, e as análises sobre modéstia em geral erram ao não incluir essas mulheres, ignorando-as como se só judias e protestantes buscassem a modéstia.

Chanel já ensinava: "Moda é arquitetura: é uma questão de proporções." Há, pois, uma necessidade de saber adequar a roupa ao estilo de corpo, ao ambiente, à cultura, ao momento do dia, para que soe elegante. Uma vestimenta absolutamente deslumbrante pode, magicamente, tornar-se brega apenas pela perda do senso de proporções.

Não só na elegância essa regra se aplica. Para a modéstia vale o mesmo, e, dado que esta é um plus em relação à elegância, é preciso ter ainda mais cuidado

5. Ojeriza à calça

No outro extremo, está um olhar escandalizado (e escrupuloso) quanto à calça feminina. Os pontos anteriores falavam de uma consciência mais relaxada, e agora estamos diante de uma rigorista. Embora não tenhamos que estar em cima do muro, no meio termo, relativizando tudo e nos comportando como os mornos, condenados no Apocalipse e que serão "vomitados", há um justo termo. Não um meio termo, mas um justo termo, e justo termo transcendente, ou seja que é equilibrado e está acima dos extremos e não posicionado como uma síntese deles.

Falei do tema da calça aqui: http://www.blogfemina.com/2014/05/pode-mulher-crista-usar-calcas.html

Resta dizer que é opção pessoal da cristã não usar por motivos variados. Mas se essa opção se transforma em uma neurose espiritual contra a calça, em um renegar, de pronto, o uso da calça, em torcer o nariz, e considerar, na prática, o uso da calça por mulher como mera tolerância, cuidado! Você já pode estar militando mais no puritanismo gnóstico do que no cristianismo.



6. Fita métrica na cabeça

Esse sinal guarda perfeita correlação com o anterior. Claro que a modéstia é algo bem concreto. Claro que devemos nos policiar e ensinar umas às outras.

Mas ficar medindo milímetros a todo instante, como eles separassem o céu do inferno, é não só psicológica e emocionalmente doentio como também espiritualmente. Recebo seguidamente e-mails e mensagens no Facebook de meninas que dizem que, após aderirem a uma concepção mais rigorista de modéstia, condenando calças como satânicas, medindo cada detalhe da saia etc, se transformaram em neuróticas da fé. Moças que se concentraram mais na busca pela "roupa ideal para a santidade" do que se empenharam no cultivo da fé, da esperança e da caridade, no trato íntimo com o Senhor, na frequência aos sacramentos e em uma vida profunda de oração. O resultado foi desastroso: foco no exterior e diminuição da vida interior gera farisaísmo e santidade nula. A alma secou por não ser alimentada. A vida cristã ficou reduzida a medir o comprimento da saia. Mais ainda: a modéstia adotada nunca era suficiente e as medidas foram cada vez aumentando, com a consequente "condenação ao inferno" de quem usasse meio milímetro a menos do que elas. Namoros santos com caras legais que as ajudariam a buscar a Deus foram rompidos. Gente de igreja, amizades sinceras, foram se afastando. Até que caíram em si e viram que não buscavam a Deus verdadeiramente, não imitavam de fato Jesus, Maria e os santos, e nem faziam apostolado. Mudaram a tempo, com a graça de Deus e o apoio do Femina.

Há a crescente tentação, em muitas meninas que buscam a modéstia, de um certo elitismo espiritual, aliado ao fetichismo de certas práticas. O véu e a saia se tornam fetiches, objetos quase mágicos, capazes de santificar quem os uso e, na prática, dispensar da oração, dos sacramentos, e de uma vida verdadeira com Deus, contentando-se, quando muito, com repetições de fórmulas - que são importantes, mas que desacompanhadas, no mais das vezes, de um coração entregue ao Senhor, se tornam vãs. Claro que o discurso não é esse, mas a prática é. O sentir-se mais cristã, mais católica, mais santa, porque a saia é mais comprida ou porque "não anda na moda", e até o exagero de defender que não se deve usar maquiagem e batom e orgulhar-se da simploriedade nas vestes como se fosse um uniforme de santa, é algo cada vez mais frequente em certos ambientes católicos...

Preocupe-se com a sua vestimenta e faça com que ela agrade a Deus. Mas não inverta as prioridades e não faça do tema "modéstia" a única (ou quase) preocupação do seu dia, da sua direção espiritual, das suas conversas e dos interesses. E, sobretudo, não fique apontando quem é imodesta sempre que passar por uma. O risco é ficar só falando disso, já que a maioria das mulheres, mesmo as bem intencionadas e puras, não é formada suficientemente nessa virtude.

As mulheres não são imodestas por serem sem-vergonhas. São imodestas por estarem longe de Cristo ou não terem suficiente formação. Apontar o dedo, condenar e xingar não resolve. Tentar dar um manual de práticas modestas nas primeiras conversas também não. A virtude e a santidade, até nas roupas, é uma consequência do fiel seguimento de Jesus Cristo. Brilhe a tua luz diante das mulheres e faça a diferença pelo exemplo. Jogue fora, sem embargo, a "fita métrica ungida". Ela não é ungida coisíssima nenhuma!

Insuspeita é a fala de um sacerdote da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, fundada por D. Marcel Lefebvre, a respeito d os usos nos vestuário das mulheres por eles atendidas: "A tendência no vestir que se tornou, aos poucos, dominante entre nós refletem a modéstia – que é necessária – mas a modéstia não está limitada às modas Tradicionais. Ao querer impor essas regras de vestimentas, nós desanimamos as pessoas mais do que as atraímos. A conseqüência é um tipo de libertação excessiva destas regras, que as leva à imodéstia. Uma outra conseqüência é um tipo de representação esclerosada da Tradição, que parece viver nos anos 50 – não muito atraente!" (Pe. Guillaume Gaud, FSSPX)

7. Falsa concepção acerca do ditado "menos é mais"

Isso também tem relação com os pontos 5 e 6. Em moda, dizemos que o menos é mais, ou seja, que não é para andar vestida de árvore de Natal. A elegância está em saber usar poucas coisas chamativas e usar muito do consagrado, do atemporal. Claro, respeitando o seu estilo pessoal  (falei mais dos estilos aqui; dá uma lida).

Algumas das rigoristas da modéstia pegam essa expressão e a usam para justificar sua pregação (que é pessoal, mas que apresentam como se fosse doutrinária e uma tábua de salvação contra a falta de castidade e pureza da sociedade contemporânea) de que a mulher cristã não deve usar jóias, acessórios, maquiagem, nada disso. Suas roupas devem ser obrigatoriamente simples (no sentido de nunca comprar nada mais elegante ou sofisticado ou de marca), beirando o simplório. Vestem-se e exigem que todas se vistam, sob pena de pecado, quase como se religiosas fossem, só que sem hábito.

"[N]ão se proíbe às mulheres um ornato moderado", diz Santo Tomás, "mas o excessivo, desavergonhado e impudico." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2)

Continua o santo: "as mulheres podem adornar-se licitamente para conservar a elegância de seu estado, e inclusive acrescentar algo para agradar a seus maridos." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2) 

"Não quisera que te precipitasses em emitir juízo de condenação obre o uso de adornos de ouro e vestidos, a não ser contra aqueles que, não estando casados nem desejando fazê-lo, têm obrigação de pensar em agradar a Deus." (Santo Agostinho, Ep. ad Possidium) Ou seja, é virtuoso que a esposa se arrume com elegância e se enfeite para agradar o marido, ou que outra, solteira, mas que deseja casar-se, também se arrume e se enfeite a fim justamente de conseguir o sacramento matrimonial.

Aliás, esse andar extremamente simplório, para uma leiga casada ou quer se casar, viver em sociedade, e cumprir sua vocação dada por Deus, pode ser sinal de vaidade espiritual fortíssima: "Não só no esplendor e na pompa corporal, senão nos vestidos mais vis e degradantes, se pode buscar vaidade." (Santo Agostinho, De Serm. Dom. in Monte)

Conversando com uma amiga lá de Minas Gerais, e que já veio me visitar aqui no Sul, a Alessandra Leão Salvioni, esposa, mãe, católica, psicóloga e consultora de moda e imagem, concordamos que a modéstia é também não querer atrair a atenção exageradamente para si, mas, ao contrário, ficar agradável aos olhos do outro, não criando excitação nos homens que não seu marido nem surpresa demasiada nas mulheres.

Dizia a Alessandra que, por isso, a "perua" não é, em profundidade, modesta. Pode até usar roupas recatadas, mas no fundo não vive a verdadeira modéstia, dado que ela tem tantos adereços que, por onde passa, só chama a atenção para si mesmo. Por isso que a modéstia e a elegância devem sempre andar juntas, em função do zelo e da discrição próprias da condição feminina. Continuava a Alê a dizer que uma mulher "mal vestida e com cara de doente, sem maquiagem, não é modesta, pois está atraindo olhares para si, por ser excessivamente diferente das demais".

A Alessandra está correta. Meu marido e eu meditamos sobre isso certa feita. É evidente que a mulher católica que vive a modéstia, que acredita na virtude do pudor, não andará conforme modas mundanas, não usará decotes ousados, roupas coladíssimas ao corpo sem a necessária proteção, nem peças curtas demais. Todavia, o "ar" da roupa de uma mulher católica, não é diferente da sociedade em que vive. Ela não adota um uniforme de uma comunidade separada - exceto se realmente for, como o caso das religiosas. Pensar em leigas, solteiras ou casadas, que destoam completamente, em suas vestimentas, do mundo em que estão inseridas, parece-me a perfeita realização do que alguém certa vez declarou ser uma espécie de "amishização da fé católica".

Em linhas gerais, a roupa da cristã piedosa e da mulher que não se preocupa com o pudor não diferem nem devem diferir, pois a roupa é um dado da cultura e ambas estão inseridas no mesmo ambiente. Notem, todavia, que falo "em linhas gerais", ou seja, que ambas, modesta e imodesta, usarão, basicamente, as mesmas coisas, pois é isso que, habitualmente, é o comum em sua época e lugar: tal tecido da moda, determinado corte que é a tendência, calças, saias, vestidos, tipos de adereços ou de maquiagens etc. Ressalto novamente que falo "em linhas gerais", de sorte que, nos detalhes, se verá claramente que a mulher piedosa veste-se de modo recatado. Mas é uma peça recatada - ou um uso recatado de uma peça neutra -, que deriva do mesmo gênero de roupa que todas usam em sua ambiente sócio-cultural. Não é algo saído da ficção, ou de outro planeta, ou de uma época que já passou.

Vestir-se exatamente como em um determinado período histórico, ou local, que não o seu, se não for uma fantasia, soa anacrônico, e chama a atenção de modo excessivo para si mesma. Alguém que saia nas ruas exatamente como se estivesse na Era Vitoriana poderia estar coberta do tornozelo ao pescoço, porém não seria modesta.

Se eu apareço em uma festa de família ou entre amigos, estarei com saia ou calça tanto quanto outras estarão, e isso não me fará destoar de modo a chamar tanto a atenção para mim. Não provocarei surpresa com um figurino absolutamente distinto do que é visto como normal. Claro, isso não é desculpa para usar minissaias, calças "socadas", blusinhas mostrando os seios etc. Recordo que falei "em linhas gerais". A roupa que usarei é a mesma, no macro, que as demais, todavia se diferenciará pelo micro, pelo detalhe. Se uma veste uma calça "socada", estarei com uma calça decente. Se outra veste uma saia curtíssima, estarei com uma saia que não revele o que não deve ser revelado. Mas ambas estarão de calças ou de saias.


Alguns poderão objetar que só o fato de andar modestamente, ainda que em linhas gerais com o mesmo vestuário das demais mulheres, já me faria chamar a atenção. Sim, faria, porém não de modo exagerado. Uma moça, ainda que com roupas bem modestas, mas sem maquiagem que lhe dê um "brilho", vestindo peças bregas, desconexas com a tendência atual, combinando pouco, parecendo uma "maria-mijona" ou membro de alguma seita, atrai olhares para si por causa de seu aspecto, e isso não é modesto, como falei. Já outra que está também com roupas bem modestas, mas no geral não destoa das demais, atrai olhares para si apenas pelo detalhe. É como se aqueles que a notassem, percebessem algo de diferente e se encantassem com isso, ao contrário de ter repulsa. Olhariam para essa segunda mulher modesta - a que também é elegante - e veriam que ela não precisa adotar o visual de uma seita qualquer para respeitar o pudor, veriam que ela somente está recatada, discreta, mas dialogando com a cultura em que vive, e não parecendo uma personagem de romance ou uma militante de qualquer tipo de utopia. Ao agradar os demais, se há reta intenção, agrada-se a Deus, e se celebra a verdade pela via da beleza, a via da pulcritude, tão cara à espiritualidade católica.

Vejam que a rainha Vasti é chamada pelo rei "com o diadema real, para mostrar ao povo e aos grandes toda a sua beleza, porque era formosa de aspecto." (Et 1,11)

O Doutor Angélico é claro ao dizer que, embora a moral seja atemporal e absoluta, a condição dos vestidos exteriores será ou não modesta segundo a cultura própria, dado que "o ornato exterior deve corresponder à condição da pessoa segundo o costume comum." (S. Th., II-II, q. 169, a. 2)

E São Francisco de Sales, o grande incentivador do apostolado e da vida de piedade dos leigos, diretor de muitas almas, e incansável conquistador de calvinistas na Genebra da qual foi Bispo, ensinava: "[N]o tocante à matéria e à forma dos vestidos, a decência só se pode determinar com relação às circunstâncias do tempo, da época, dos estados ou vocações, da sociedade em que se vive e das ocasiões." (Filoteia, III, cap. XXV)

Devemos, as católicas, ser discretas, mas não sem graça. “Alguns infelizes impulsos Jansenistas ou Puritanos na imaginação Católica moderna têm equiparado modéstia a esconder a figura feminina. Aparentemente, muitas mulheres católicas pensam estar sendo modestas vestindo roupas não atraentes.” (Regina Schmiedicke)

8. Desconforto ao falar ou ao expor um pouco o seu próprio corpo

O pudor protege o corpo, sobretudo o feminino, qual um santuário. "A prática do pudor e da modéstia, no falar, no agir e no vestir, é muito importante para criar um clima apropriado à conservação da castidade, mas isto deve ser bem motivado pelo respeito do próprio corpo e da dignidade dos outros. Como já se mencionou, os pais devem vigiar a fim de que certas modas e certas atitudes imorais não violem a integridade da casa, particularmente através do mau uso dos mass media." (Pontifício Conselho para a Família, Documento "Sexualidade humana: verdade e significado. Orientações educativas em família", de 8 de dezembro de 1995, 56)


Sem embargo, Deus, aos nos criar mulheres, nos fez diferentes e essa diferença não pode ser anulada por uma concepção extremista do pudor, negando o que é propriamente feminino no nosso corpo, que é bom. Parece-me que, por vezes, estamos entre dois exageros: a exposição desmedida do corpo, em nome do falso princípio de que o que é bonito é para se mostrar, e a cobertura demasiada do corpo ou “enfeiamento” das vestes, em um desprezo não só da elegância e da pulcritude, como do próprio corpo, em uma noção um tanto gnóstica tão cara aos cátaros.

O corpo não é maldito. É criação de Deus. Uma coisa é querer, então, proteger o corpo, sobretudo certas partes, de olhares maldosos, e buscar a pureza. Outra é ter verdadeiro desconforto ao falar do corpo, ao pensar no corpo, ao olhar para o próprio corpo (já ouvi relatos de meninas que acham que pecam quando estão nuas tomando banho e, por isso, evitam estar peladas diante do espelho antes de se vestir). A exposição desmedida do corpo é um mal, mas não podemos nos envergonhar dele nem querer cobri-lo de modo a anular a nossa feminilidade.

Sejamos realistas. Não somos anjos. Não somos puros espíritos. O homem se apaixona pela mulher primeiramente pela estética. A beleza do corpo não é determinante, mas conta muitos pontos. Isso não autoriza a que andemos seminuas por aí, exibindo decotes avantajados e vestimentas que salientem nossas curvas. Mas também não se deve confundir modéstia com vestes islâmicas radicais, coisa que parte de um pressuposto equivocado quanto ao corpo feminino e sua função inclusive na conquista rumo ao casamento. O homem é atraído pelo olhar. A modéstia deve proteger o olhar maldoso, não todo e qualquer olhar, até porque sem olhar o homem será atraído como por determinada mulher? Muitas modestas radicais não arranjam bons namorados e não sabem o motivo...

Tenho falado muito sobre a questão da banalização da mulher, com seu corpo, sua dignidade. Muito tenho comentado e vejo uma onda conservadora, surgindo para combater este mal que o feminismo nos trouxe. Graças a Deus vejo mulheres, e não mais só homens, surgindo para levantar bandeiras contra esta vulgarização disfarçada de modernidade que até mesmo parte da mídia vem tentando nos impor. Diluídas em novelinhas açucaradas e outros programas, pautam a fraca formação intelectual do povo brasileiro.

Mas o que era para ser um valor, um ódio ao erro, acaba se transformado em outro. Há um cheiro de puritanismo no ar. Refiro-me a isto quando católicas conservadoras, empenhadas comigo na luta pela modéstia e pelo pudor me escrevem dizendo que mulher não pode usar calças, nem mostrar o ombro e, "que horror", quando mostram o colo!

Evidentemente que não sou a favor da máxima de que o que é bonito é para se mostrar. O que é meu, bonito e íntimo mostro para meu marido, meu corpo é dele. Todavia, não penso que por causa disto deva andar coberta dos pés à cabeça, como as muçulmanas o fazem, ou com certas crentes de algumas seitas protestantes. Até porque nelas uma virtude muito bonita de agradar a Deus e ao marido se transforma em uma corrupção da verdade.

Para os católicos, ao buscar o equilíbrio, o bom senso nos ajuda. E não temos nenhuma listinha de "pode" e "não pode". A verdadeira modéstia é razoável, pois a fé é razoável, Deus é razoável. O Senhor nos criou, como já disse, com evidentes diferenças entre homem e mulher, não só nos aspectos psicológicos e afetivos, como corpóreos, e descabe a nós proscrever o que Ele mesmo fez de modo claro, com roupas que, em nome de um mal-entendido conceito de pudor, tiram toda a graça da feminilidade, deixando a mulher brega, mal-vestida, cabisbaixa... Entre os extremos da imodéstia e falta de pureza nas roupas, de um lado, e da concepção de que o pudor se mede com fitas milimétricas ou com cartilhas do que pode ou não usar, há que se entender exatamente o que venho tentando explicar. O exagero de alguns apóstolos da modéstia, condenando as calças femininas ou pontificando determinados tecidos ou comprimento de saias e blusas, de modo absoluto, sem levar em conta os tipos de corpos, os ambientes, a época, a cultura, as demais peças que compõem o look, demonstra uma compreensão pessimista da pessoa humana, que fere sua dignidade e parece ver em toda mulher um objeto obrigatório de pecado e em todo homem um tarado em potencial. É óbvio que se peca pelos olhos. É óbvio que é possível ter tentações contra a castidade ao ver uma mulher seminua. É óbvio que uma mulher imodesta concorre para o pecado do homem que a vê. Sem embargo, como se pode perceber no decorrer deste despretensioso livro, é preciso aplicar a modéstia às circunstâncias bem determinadas, e não afastar as pessoas umas das outras, pela repulsa ou pelo entendimento prático de que o corpo feminino seja pecaminoso por si só. Ele é bonito, não deve ser total ou totalmente quase mostrado, mas por outro lado, não total ou quase totalmente coberto como se carregasse uma chaga ou fosse, em absoluto, errado um homem se sentir atraído por uma mulher. A atração pelo corpo feminino é natural e, por isso, neutra: o pecado está no grau da atração e no que fazemos e pensamos com base nesse sentimento.

Também se deve saber que cada pessoa tem uma personalidade e um tipo físico. O que fica bem para mim talvez não fique em outra. "A melhor cor em todo o mundo é a que parece boa em você!" (Coco Chanel) Se sou mais avantajada, não posso usar tomara-que-caia, bem como se sou um pouco estabanada, corro o risco de ficar indecente. O fundador dos Irmãos das Escolas Cristãs – conhecidos como lassallistas – compilou um seu opúsculo exatamente isso: "Para que uma roupa seja adequada, é preciso que convenha à pessoa que o usa e que seja proporcional ao seu tamanho, à sua idade e à condição." (São João Batista de La Salle. Regras de Cortesia e Urbanidade Cristã, 2,3,1,2) Mais adiante, o mesmo santo continua: "O que convém a um não é, certamente, apropriado ao outro.” (Regras de Cortesia e Urbanidade Cristã, 2,3,1,5)

Cabe ao cristão se conhecer; isto sim é regra. Estudar seu temperamento, saber seus pontos fortes e fracos. A partir daí, saberá o que cai bem a si e nas ocasiões a em que estará presente. A caridade para com os outros começa com o autoconhecimento.

"Seus vestidos devem ser justos o suficiente para mostrar que você é mulher, e soltos o suficiente para mostrar que você é uma dama." (Edith Head)

9. Pensamento de que qualquer contextualização é sinônimo de relativismo

Enfim, chegamos ao último sinal. Sempre dizemos: modéstia é absoluta, sua exteriorização é relativa. A virtude não muda, mas os modos pelos quais ela se expressa mudam conforma a época, o ambiente, a cultura, e o próprio corpo da mulher que veste determinada roupa.

Quando falo isso, sou acusada por alguns de relativismo.

Nada mais falso! Relativismo não é considerar que existam coisas relativas, e sim que não haja nada absoluto. A fuga do relativismo não nos autoriza a cair no absolutismo. Ok, a verdade não é relativa. Ok, existem coisas absolutas. Mas, assim como nem tudo é relativo, nem tudo é absoluto.

Contextualizar, matizar, mostrar que algo relativo é justamente relativo não é relativismo!

A modéstia pede que cubramos aquilo que não interessa aos outros, que nos é nobre, que nos é caro. Quem é que disse que o que é bonito necessariamente tem que ser mostrado? O raciocínio não seria outro? O que é precioso deve ser guardado, isso sim!

Isso não quer dizer que, preocupadas com o pudor, tenhamos que ir à praia cobertas de burca afegã.

O pudor é uma virtude e, como tal, perene, eterna. A exteriorização dessa virtude, todavia, pode seguir padrões culturais. Sem relativismo, claro, sem concessões a uma moda sensual, ao culto ao corpo, ao apelo sexual, mas também sem nos isolarmos em uma redoma. 



Embora a modéstia seja sempre a mesma, a aplicação de seus princípios guarda uma correlação entre vários fatores: tipo de corpo da mulher, lugar que se frequenta, atividade que se faz, mundo à volta, aspectos sociais e culturais.

É de um Papa canonizado, ainda que se expresse nessa ocasião como doutor privado, o seguinte ensino. Recordemos: santo, com vida de santidade reconhecida pela Igreja e especialista justamente no tema da Teologia do Corpo. "Já que a roupa é considerada em relação ao problema do pudor e do impudor, talvez seria proveitoso considerar o seu papel funcional. Pois, assim como há certas situações objetivas, nas quais até a total nudez do corpo não é impudica, porque a função própria desta nudez não é provocar nenhuma reação a respeito da pessoa como objeto de uso, assim também com certeza há várias funções das várias maneiras de vestir-se ligadas `a parcial ou total nudez do corpo, por ex., no trabalho físico, durante o calor, no banho, perante o médico. Tratando-se de qualificar moralmente a maneira de vestir-se, é preciso partir da variedade de funções, às quais a roupa deve servir. Não deve considerar-se impudica a pessoa que usa determinada roupa, mesmo que apareça a nudez parcial, se realiza uma função objetiva. No entanto, seria impudico o uso de tal roupa for a de sua própria função, e assim também deve ser percebido. Por exemplo: não é contrário ao pudor tomar banho de maiô, mas sê-lo-ia usá-lo na rua ou na avenida." (São João Paulo II. Amor e responsabilidade)

Na visão da Igreja, a moral deve ser pensada por princípios, não por regras de pode e não pode, pois isso é próprio do puritanismo, de matriz gnóstica. Assim que, a cada circunstância, os princípios devem ser invocados, não um recurso a uma lista. E, com base nesses princípios, em coisas contingentes, pode-se ter conclusão distinta.

Não há uma regra "isso é modesto", "aquilo é imodesto". Evidentemente, que há situações que saltam aos olhos quanto ao erro, por afastarem a virtude do pudor. A maioria dos "tomara-que-caia", a "minissaia", e certos maiôs, por exemplo, são absolutamente incompatíveis com a modéstia cristã. Outras roupas são imodestas dependendo da situação.

Não deixemos, outrossim, de valorar o componente cultural e de aceitação social. Não deve ser determinante - uma sociedade em que seja “normal” andar pelado, nem por isso deixará de ferir o pudor. Porém, são fatores a considerar, sim.

Combatamos pelo pudor, pela modéstia, pela moralidade. Sem nos atermos a um mundo ideal dos anos 50.

Calças apertadas, "socadas", por exemplo, são igualmente um atentado ao pudor. Isso não quer dizer que todas as calças femininas tenham que ser como as de palhaço de circo. Claro que as partes pudicas e as nádegas não devem ser mostradas com calças apertadas, e uma roupa por cima dessas partes resolve o problema.

Não quero me aproximar de um certo tipo de "comunismo das vestimentas", onde todas as mulheres acabariam tendo não só uma regra para se vestir, como quem sabe para falar, andar, agir e tudo mais. 

Como um sacerdote amigo nosso respondeu ao Rafael, meu esposo, em uma conversa que tiveram tempos atrás:

"Seria tudo mais fácil se tivéssemos tabelas sobre ‘o que se pode ou não usar’, mas, como sabemos, a moral católica não funciona assim.

Funcionamos com princípios. E, o princípio que poderíamos partir para tentar achar alguma luz para este caso é a própria definição da virtude da modéstia. Santo Tomás a define como 'virtude que governa nossas ações, gestos e atitudes de modo que, no possível, não demos aos demais - nem a nós mesmos - ocasião de apetências sexuais desordenadas.'"

Percebem que caminho tendencioso estaremos seguindo? Onde estará o respeito as individualidades de cada um? Há o cinza, amigas. E onde a Igreja não legisla, cabe a nós discernirmos o que é correto, bem como o que cabe para cada ocasião.

Na S. Th., I-II, q. 7, Santo Tomás trata de esclarecer que as circunstâncias dos atos humanos são também fundamentos da moral. A moralidade é absoluta, mas a aplicação de seus princípios leva em conta aspectos circunstanciais. Isso se aplica, como visto, às roupas.

Aliás, Santo Agostinho, na Carta 54, diz não poder condenar quem comunga todos os dias e quem se abstém disso e, depois, dá uma longa explicação de como os costumes mudam de lugar para lugar. Continua que, exceto por uma ordem explícita do Papa, não há razão para violar as liberdades dos diferentes povos. Se é costume generalizado, e aceito pela maioria dos bons cristãos, honrados, que buscam a santidade, que comungam com os ensinamentos da Igreja, que a mulher use calça, então esse uso é permitido. Não se trata de democracia para escolher o que é certo ou errado, mas saber que as roupas dependem dos costumes e, associando o que diz Santo Tomás e Santo Agostinho, ele é fonte da moralidade. Os costumes atuais dos cristãos e suas intenções e sensibilidades são elementos que podem mudar a apreciação moral. 

Essa relativização da moda e sua interpretação da virtude do pudor no vestir de acordo com os costumes gerais, pode ter seu exemplo na comparação entre a iconografia – que é um locus theologici – que representa Cristo com os cabelos compridos e a advertência bíblica, da lavra de São Paulo Apóstolo, de que os homens não o deveriam portar. Não é uma contradição entre o Mestre e o discípulo, mas a constatação de que diferentes costumes no trajar geram "regras" diferentes. São Paulo falava a um público no qual os cabelos compridos masculinos soariam imodestos. É um indício claro de que há, nesse terreno, coisas absolutas e relativas. Também o Concílio de Jerusalém proibindo carne sufocada para os pagãos - ou S. Paulo proibindo de comer carne a alguns, enquanto permitia a outros -, podem ajudar a iluminar essas situações onde as circunstâncias jogam papel relevante no juízo moral.

Quanto a Igreja diz "mulheres devem usar roupas de mulher", ela não está definindo qual é a roupa de mulher. O que vai definir é a cultura, o ambiente, o caimento da roupa, o tipo de corte, o biótipo da mulher em específico. Isso não é relativismo. Relativismo seria relativizar a expressão "mulheres devem usar roupas de mulher", pois isso, como uma verdade, é necessariamente absoluta e objetiva. Já o conceito de roupa de mulher não é uma verdade, e é variável. O modernismo, vejam, foi condenado por ser a variabilidade do conceito de cada dogma, mas isso não impede que outras coisas possam variar. Verdades não variam, não se adaptam, mas o conceito de roupa de mulher não é uma verdade. Temos, claro, que sempre usar roupa de mulher, mas o conceito disso pode mudar. Se eu usasse uma calça jeans com corte masculino ou um terno com gravata, igual ao meu marido, algo estaria errado, mas não uma calça ou um terninho com corte feminino: e reconhecemos bem um quando o encontramos, não?

"Esta é uma das questões particulares [a roupa] nas quais o problema do pudor ou do impudor aparece com mais frequência. Seria difícil discutir agora as nuanças da moda feminina ou masculina enquanto se relacionam com o problema mencionado, o problema do pudor e do impudor certamente se relaciona com a questão da moda, ainda que talvez não da maneira que em geral se supõe... Além disso é inevitável que a roupa destaque o valor do sexo, mas não há razão para que contradiga o pudor. Não há nada de impudico no vestir a não ser aquilo que, ao destacar o sexo, contribui claramente para diminuir o valor essencial da pessoa, provoca inevitavelmente uma reação a respeito da pessoa como se ela fosse só um 'objeto possível de uso', por causa do seu sexo, e impede a reação a respeito da pessoa enquanto 'um possível objeto de amor', por causa do seu valor como pessoa." (São João Paulo II. Amor e Responsabilidade)

A absolutização das vestes, como se mulheres sempre devessem usar saias e vestidos, lhes sendo vetadas as calças, ignora as diferenças regionais e temporais. Nem sempre a mulher - e mulher cristã, mulher modesta, mulher de bons costumes - vestiu a mesma coisa. A modéstia não muda. A aplicação de suas regras às roupas muda, e muda porque mudam as roupas, mudam os costumes, mudam os cortes, mudam até os corpos. Dogmatizar a indumentária tem raízes não só no gnosticismo, mas em um etnocentrismo. A Carta a Diogneto, um dos primeiros documentos do cristianismo, dizia que os cristãos não se distinguiam dos pagãos por suas roupas. 

As túnicas femininas do tempo de Cristo, aliás, mesmo as usadas por judias piedosas e pelas primeiras cristãs, deixavam à mostra o braço inteiro e o pescoço. Não se encaixariam em algumas "regras" que algumas radicais da modéstia pregam.

Aliás, essas mesmas "regras" das radicais falam, por exemplo, em não se usar vestidos no joelho, e sim um ou dois dedos abaixo dele. Só que essa mesma regra seria considerada imodesta no séc. XIX: apenas vestidos nos tornozelos eram permitidos. Ou seja, as radicais da modéstia atuais, tão ávidas a condenar as cristãs que prezam a modéstia mas usam calças e saias um pouco acima dos joelhos, estariam condenadas pela aplicação anterior da mesma modéstia. 

O fato é que as radicais, ao misturar a modéstia absoluta com a aplicação relativa da mesma (relativa porque se relaciona com o tempo, com o ambiente, com o corpo, enfim, com os costumes, que, como vimos, é fonte da moralidade do comportamento humano), prendem-se ao que os anos 50 consideravam modesto. Isso parece ter origem na idolatria dessa "época de ouro" dos americanos, no pós-guerra. Os Estados Unidos formam o caldo de cultura ideal para o pensamento sectário: puritanismo do modo de pensar - dado que foi fundado por calvinistas puritanos - e glorificação do pós-guerra. Somemos esses dois aspectos e temos as listas de "pode e não pode", oriundas de setores brasileiros que beberam em algumas fontes católicas mais tradicionais norte-americanas.

Quanto a comparar nossas roupas às que a Santíssima Virgem usaria, teríamos que ter certo cuidado. Primeiro porque ela era consagrada e como tal deve-se diferenciar das demais mulheres, segundo que, basta olharmos as mulheres que eram santas e que se trajavam de forma comum à sua época. E o que nunca faltou à Nossa Amada Mãe foi bom senso e capacidade de se adaptar à realidade que se encontrava, sem nunca perder a caridade e a noção do correto. Depois, é interessante que coloquemos bem claro, em nossa meditação, que temos que imitar, nos santos, a sua virtude, mas não cada comportamento exatamente igual. Do contrário, estaríamos deixando de imitar Nossa Senhora se tivermos relações com nossos maridos, por exemplo.

C.S. Lewis, o autor das "Crônicas de Nárnia", um cristão fervoroso, escreveu:

"Consideremos agora a moralidade cristã no que diz respeito à questão do sexo, ou seja, o que os cristãos chamam de virtude da castidade. Não se deve confundir a regra cristã da castidade com a regra social da "modéstia", no sentido de pudor ou decência. A regra social do pudor estipula quais partes do corpo podem ser mostradas e quais assuntos podem ser abordados, e de que forma, de acordo com os costumes de determinado círculo social. Logo, enquanto a regra da castidade é a mesma para todos os cristãos em todas as épocas, a regra do pudor muda. Um moça das ilhas do Pacífico, praticamente nua, e uma dama vitoriana completamente coberta, podem ambas ser igualmente "modestas", pudicas e descentes de acordo com o padrão da sociedade em que vivem. Ambas, pelo que suas roupas nos dizem, podem ser igualmente castas (ou igualmente devassas). Parte do vocabulário que uma mulher casta usava nos tempos de Shakespeare só seria usado no século XIX por uma mulher completamente desinibida."

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5 comentários

  1. Mudou minha maneira de enxergar a "modéstia". Obrigada pelo texto!!

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  2. Engraçado é que não vi nenhuma imagem de Nossa Senhora, a quem devemos ter como modelo de modéstia.
    Admiro-me ao ver-te falar de modéstia e ficar postando tantas fotos particulares... Poderia ter postado fotos de santas e principalmente de Nossa Senhora, a quem devemos ter como modelo.
    Já dizia São Francisco de Sales sobre a modéstia no vestir: "...guarda-te cuidadosamente das vaidades e afetações, das curiosidades e das modas levianas. Observa as regras de simplicidade e modéstia, que são indubitavelmente o mais precioso ornato da beleza e a melhor escusa da fealdade." (Filoteia, São Francisco de Sales).

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    1. O blog não é religioso, ou seja, não é explicitamente cristão. Embora eu seja cristã, católica (e, sim, conheço e bem São Francisco de Sales, e o uso em minhas orações). É um blog de moda. É um típico apostolado leigo, aquele que devemos fazer em nossas obrigações normais. Eu não preciso, por exemplo, já que sou advogada, colocar um papel timbrado com uma cruz nas minhas petições judiciais. Nem por isso minhas ações no fórum deixam de ter caráter espiritual e apostólico. São Josemaria Escrivá ensina muito isso.

      É claro que vou postar fotos minhas. Não por vaidade (e se me acusas de ser vaidosa, ou insinuas isso com a citação de São Francisco Sales, estás pecando gravemente contra a minha honra, procurando sondar meu íntimo, o que, aliás, é bem característico de certo grupo de modéstia extremista e que tem por hábito fazer esse tipo de julgamento sobre as almas alheias).

      Não é preciso ter uma imagem de Nossa Senhora no post para demonstrar meu amor por ela. Ela rege minha vida e da minha família (todos os meus filhos, logo após serem batizados, foram consagrados a ela; não levei buquê ao casar, mas um terço, e o buquê que esteve presente no casamento eu dei de presente para a Virgem de Guadalupe após a Missa); suas imagens estão em todos os cômodos de nossa casa (quarto do casal, quarto das meninas, quarto do menino, cozinha, sala de estar, sala de jantar, sala íntima, hall, salão de festas etc); também em nossa fazenda temos imagens dela. A ela dirigimos nossas orações pela manhã e pela noite, e rezamos o terço diariamente em família, além de semanalmente, aos sábados, consagrarmos uma parte de nossa tarde para orações diante de sua imagem. Ademais, eu uso o véu em imitação a ela. Acredito que não preciso, então, provar meu amor e devoção. Ficar exigindo isso é característica de algumas pessoas sectárias que usam mais o exterior do que o interior, e jactam-se de seus véus e cadeias. Eu não faço parte disso, caríssima. Meu apostolado e minha devoção são discretos.

      O blog, como eu disse, é de MODA. E, claro, como sou católica, é óbvio que as virtudes e noções cristãs o influenciam, entre as quais a modéstia.

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  3. Continue fazendo o que vc faz, sou evangélica e venho sempre aqui acompanhar o seu estilo de viver e vestir, feliz ano novo!

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