Crise da feminilidade

quarta-feira, dezembro 24, 2014


É um erro atribuir a crise da feminilidade exclusivamente às pretensões feministas. Claro que elas têm sua parcela de culpa, mas muitas vezes são meras conseqüências de equívocos anteriores, radicalização de uma bandeira para combater um excesso antagônico. De certa forma, o colapso do papel da mulher se deve também ao fato de que muitos homens, desde pouco depois da Revolução Industrial, esqueceram qual a sua missão específica.

Quem é a mulher? O que ela é? Onde reside sua dignidade?



A dignidade da mulher procede primeiro de sua natureza humana. Igual ao homem em essência, criada, pois, por Deus, é digna por si só, é digna por ser imagem e semelhança do Criador, é digna por sua ontológica liberdade, por sua vontade, sua idoneidade intelectual. Sem embargo, há uma fonte de sua dignidade: a capacidade de ser mãe. A maternidade, ainda que não se efetive em todas, por vocação ou por alguma impossibilidade física ou psicológica concreta, está presente em potência no gênero feminino e é ela que faz a mulher ainda mais semelhante a Deus em seus acidentes. Os cristãos entendem que, como o Pai gera o Filho, a mulher pode gerar sua prole. É uma participação toda especial no ato criador. E isso a faz toda especial, tanto quanto o homem em sua essência, e, ouso dizer, mais do que ele em seus acidentes por esse caráter sagrado de gerar vida.

Ao contrário do que muitos sustentam, o cristianismo não vê nem nunca viu o casamento como um mal menor, como algo a ser meramente tolerado. Pelo contrário, a Igreja Católica ensina que o casamento é tão bom que não apenas foi criado por Deus, como elevado depois, por Jesus Cristo, à condição de sacramento.

E o casamento cristão confere uma igualdade de dignidade à mulher, ao contrário do mundo antigo, em que o marido era dono da esposa. É o cristianismo a primeira grande proclamação de liberdade da mulher. E no casamento, não fora dele, como hoje bradam as feministas. O casamento é a celebração da liberdade e não a promoção da escravidão da mulher. É um locus onde a dignidade da mulher pode ser festejada de modo muito claro, até porque nele é possível, com bastante nitidez, perceber em ato as características psicológicas da mulher, muito ligadas a seus elementos distintivos físicos.

De fato, a mulher se difere fisicamente do homem não só pela anatomia corpórea, como pela maturidade precoce, pelo ritmo assinalado pelo ciclo menstrual, pela ação forte dos hormônios, sobretudo na tensão que antecede o fluxo, e pela potencialidade de marcar sua existência pela gravidez, nascimento dos filhos e amamentação. Ademais, é notória, em linhas gerais, sua maior vulnerabilidade em relação ao indivíduo do sexo masculino.

Nesse sentido, entendendo-se o ser humano como um ser integral, é inevitável que se chegue a conclusão da existência de características psicológicas próprias da mulher, distintas do homem. Claro, isso não invalida que cada mulher seja única em seu aparelho psíquico, assim como é única em sua conformação física; nem que existam determinados grupos de temperamentos que distingam mulheres umas das outras, aproximem igualmente umas das outras e, até mesmo, as façam semelhantes, por eles, a alguns homens com os mesmos temperamentos, ao menos em alguns aspectos. Há, sem embargo, traços gerais emocionais e espirituais que são específicos do feminino, em contraposição ao masculino. Como fisicamente se completam os corpos masculino e feminino, também  nas idiossincrasias psicológicas isso ocorre.

Se o homem é o caçador, a mulher é a protetora da casa. Ela está – como expõe Carlos Ramalhete – mais para primeiro-ministro do que para ministro das relações exteriores. Isso parte da premissa psicológica de que a mulher tem todo um ajustamento interior para a defesa, mais do que para o ataque. E essa atitude de defesa é própria de quem tem por missão – adequada a seu físico preparado para a concepção, gestação e nascimento -  os primeiros cuidados com a prole.

Daí que a feminilidade seja receptiva. É próprio dela receber a “semente” do homem em seu seio, gestando e guardando a vida humana desde o seu início. Ela é a destinatária do amor para, sendo amada, amar. Ensina João Paulo II: “Quando dizemos que a mulher é aquela que recebe amor para, por sua vez, amar, não entendemos só ou antes de tudo a relação esponsal específica do matrimônio. Entendemos algo mais universal, fundado no próprio fato de ser mulher no conjunto das relações interpessoais, que nas formas mais diversas estruturam a convivência e a colaboração entre as pessoas, homens e mulheres. Neste contexto, amplo e diversificado, a mulher representa um valor particular como pessoa humana e, ao mesmo tempo, como pessoa concreta, pelo fato da sua feminilidade. Isto se refere a todas as mulheres e a cada uma delas, independentemente do contexto cultural em que cada uma se encontra e das suas características espirituais, psíquicas e corporais, como, por exemplo, a idade, a instrução, a saúde, o trabalho, o fato de ser casada ou solteira.” (Mulieris Dignitatem, 29)



A presente crise da feminilidade é, pois, uma negação, total ou parcial, do exposto acima, e gera os tremendos desequilíbrios da sociedade atual. Mas essa crise é, ao menos em alguns pontos, consequência da crise da masculinidade.

Os homens, há tempos, vem sofrendo com a crise do secularismo, segundo Alice Von Hildebrand. Pais de família creram que, para obter reconhecimento, tinham que ter poder, dinheiro e tudo que esteja ligado a eles, desprezando qualquer outra atividade que lhes seja também natural, ainda que secundária, como o cuidado com sua família. O homem se burocratizou e isso atingiu em cheio a masculinidade.

A família para esses homens virou apenas lazer ou acessório para ostentação social. Levando ao sofrimento da esposa e de seus filhos. Os casamentos começaram a ruir, pois mulher nenhuma suporta tanto desprezo e abandono. Tampouco ver essa apatia com sua prole.

Um dos sintomas da crise de identidade feminina é a fuga da dor de muitas mulheres atuais. Isso é uma clara manifestação de hedonismo. Grande parte das mulheres de hoje fogem da dor porque foram formadas no feminismo, que se transmite não só em postulados teóricos e acadêmicos, mas na visão que o mundo nos oferece do papel da mulher, nos veículos de comunicação, e até nas conversas informais, do salão de beleza ao restaurante com as amigas. E o feminismo copia não o homem, mas o homem piorado do fim do séc. XIX, de todo o séc. XX e do início do séc. XXI, com seus prazeres desmedidos, e com uma visão de trabalho não integrado ao lar, como explicou a Dra. Alice mais acima. É o homem aburguesado…

Primeiro é o homem que foge às suas responsabilidades de marido e pai, deixa de estar presente com a família e se concentra só no trabalho, mas não necessariamente para prover a família, e sim para juntar dinheiro e desfrutar de prazeres – alguns lícitos até, em si mesmos. A mulher, ao querer a independência, vai copiar esse modelo de homem, e não o “antigo”. A crise do feminino nasce de uma crise do masculino. E aquela vai gerar uma nova crise masculina hoje em dia, que não é, todavia, o propósito deste artigo, porém merece ser relembrada: é ela que cria tanto o neo-brutamontes do tal “movimento masculinista”, machão e “pegador”, desprezador da mulher, que a considera sempre ou na maioria das vezes uma vagabunda, quanto o sensível em excesso, piegas, que, querendo poupar a mulher de alguns dissabores – o que faz bem – acaba por assumir papéis femininos – o que faz mal –, e, enfim, cria também o metrossexual, que com sua namorada compete por cremes e tratamentos de beleza.

Para enfrentar a desfiguração da mulher, não basta atacar os fundamentos do feminismo, aderindo a eles com a mesma disposição de quem sustenta os clichês daquele. Pelo contrário, como a destruição de um castelo de cartas leva bem menos tempo e paciência do que reconstruí-lo, urge fazer um trabalho de formiguinha, em todos os campos, para reerguer em sua dignidade o ser humano completo, mulher e homem.

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