Meu apostolado como mulher

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Todos somos chamados a anunciar o Evangelho, de uma forma ou de outra. O mandamento do "Ide" foi dado primeiro aos Bispos, Sucessores dos Apóstolos, e os sacerdotes e diáconos, seus colaboradores mais próximos. Mas por sermos parte do mesmo Corpo de Cristo, a Igreja, também participamos, os leigos - solteiros, religiosos e casados -, dessa grande comissão dada pelo Senhor. 

"Nasceu a Igreja com a missão específica de expandir o Reino de Cristo por sobre a terra, para a glória de Deus Pai, tornando os homens todos participantes da redenção salutar e orientando, de fato, através deles, o mundo inteiro para Cristo. Todo o esforço do Corpo Místico de Cristo que persiga tal escopo, recebe o nome de apostolado. Exerce-o a Igreja através de todos os seus membros, embora por modos diversos. Pois a vocação cristã, é, por sua própria natureza, também vocação para o apostolado. (...) Os leigos (...), participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, compartilham a missão de todo o povo de Deus e na Igreja e no mundo. Realizam, verdadeiramente, apostolado quando se dedicam a evangelizar e santificar os homens, e animar e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho, de maneira a dar, com a sua ação neste campo, claro testemunho de Cristo, e a ajudar à salvação dos homens." (Concílio Ecumênico Vaticano II. Decreto Apostolicam Actuositatem, 2) 


E isso não exclui a mulher.

Santa Maria Madalena após a Ressurreição comunica o evento pascal aos Apóstolos, e depois da Ascensão do Senhor evangeliza a França com São Lázaro e Santa Marta, seus irmãos. Santa Marta, a irmã de Maria Madalena, preocupa-se em ajudar a preparar as coisas para o Cristo que visita sua casa. E tantas outras mulheres santas na história da Igreja nos mostram a participação feminina no trabalho apostólico. 

Temos o exemplo de Santa Teresa de Ávila com a reforma do Carmelo; Santa Hildegarda de Bingen, a grande intelectual da Alemanha medieval (ao contrário do que pensam os modernos, a Idade Média não era machista e uma mulher como Hildegarda pôde aparecer); Santa Priscila, colaborada de São Paulo; Santa Tecla, que foi chamada “Igual-aos-Apóstolos” por conta de seu maravilhoso testemunho e martírio; Santa Teresinha agradando a Deus pela pequena via; ainda a moderna Santa Joana Beretta Mola, mãe, esposa, médica e apóstola da vida; Santa Isabel Ana Seton; Santa Josefina Bakhita; Santa Helena, imperatriz e mãe do imperador Constantino, que não descansou enquanto não achou a verdadeira Cruz em Jerusalém; Nhá Chica e seu apostolado leigo muito simples, mas fecundo, aqui no Brasil; Beata Teresa de Calcutá e sua doação aos pobres. E minha onomástica, a santa que carrega meu nome, Santa Aline, irmã de São Vital, governando o seu mosteiro na Normandia dos primeiros séculos da era cristã

Como mulher, certamente que meu apostolado, minha evangelização carregará traços da minha feminilidade. 

O que Deus espera de nós, mulheres, na urgente tarefa de conquistar almas para Ele, de espalhar o amor imenso de Jesus aos outros, de santificar o ambiente em que vivemos, enfim, de fazer, como pede o Papa, o trabalho da Nova Evangelização? O cumprimento fiel de cada vocação é o primeiro e determinante passo. Cada vocação é única. Uma monja de clausura não cumpre o chamado de Deus se vive como secular. Uma mãe de família também não cumpre se descuida de seu dever de estado, de seu marido e de seus filhos, e passa em "êxtases" como se fosse uma freira contemplativa. 

Diz a Igreja:

"Os fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja: graças a eles a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, especialmente eles devem ter uma consciência sempre mais clara não somente de pertencerem a Igreja, mas de serem Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis na terra sob a direção do Chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja." (Sua Santidade, o Papa Pio XII. Discurso de 20 de fevereiro de 1946)

"É específico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus. (...) A eles, portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de tal modo todas as coisas temporais, às quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo Cristo e contribuam para o louvor do Criador e Redentor." (Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Dogmática "Lumen Gentium", 31) 



Meu marido, Rafael, certa vez escreveu:

"Os meios dos leigos desempenharem tão importante tarefa são variados.

Pode o leigo exercer seu apostolado pelo fiel desempenho de seus deveres de estado, sobretudo criando sua família e educando seus filhos na nossa santíssima religião, ensinando-os a ser pessoas cumpridoras de seus deveres para com Deus e o próximo, e incutindo em suas almas o amor pela prática das virtudes.

Também é possível que o leigo apresente-se ao Bispo para ser instituído em algum ministério na Igreja: acólito, leitor, catequista instituído.

O ensino da fé, a difusão da doutrina, o anúncio de Cristo aos outros, por palestras, pregação, literatura, imprensa etc, pode ser uma forma bastante eficaz de cumprir o mandato evangelizador.

Por sua vez, é imprescindível hoje quem dê testemunho da fé em Cristo e na Igreja Católica, e por isso a defesa da doutrina católica se faz muitíssimo necessária: é a arte da apologética.

Atividade social, trabalho em um colégio católico, fundação de obras assistenciais e espirituais, constituem-se campos variadíssimos para atuação do leigo. A tarefa das missões também é um chamado aberto a todos os fiéis.

O testemunho público de uma vida de santidade, que o leigo pode fazer, é como uma espécie de pregação silenciosa... E que silêncio eloqüente!

Por fim, a reforma moral da sociedade e a luta pela Civilização Católica são um trabalho bastante apropriado para quem vive no estado laical, seja solteiro ou casado."

Como Débora (cf. Jz 4,4), a profetisa Hulda (cf. 2 Cr 34,19-28), a rainha Ester (cf. Est), Rute (cf. Rt), Judite (cf. Jt), as mulheres influentes de Tessalônica (cf. At 17,4), as mulheres gregas de alta posição em Berea (cf. At 16,14-15), posso e, em algos casos, devo, influenciar a sociedade em um ofício fora do lar. "Como na vida do homem, mas com matizes muito peculiares, o lar e a família ocuparão sempre um lugar central na vida da mulher. É evidente que a dedicação às tarefas familiares representa uma grande função humana e cristã. Contudo, isto não exclui a possibilidade de se ocupar em outros trabalhos profissionais – o do lar também o é –, em qualquer dos ofícios e empregos honestos que há na sociedade em que se vive." (São Josemaria Escrivá. Temas atuais de cristianismo, 87) Isso é o mais importante, porém?

Recordemos a vida de uma grande rainha espanhola.

Isabel, a Católica, rainha de Castela e que consolidou a Reconquista da Espanha aos mouros e unificou seu país, patrocinando depois, a viagem de Cristóvão Colombo para descobrir a América, é um exemplo perfeito de mulher que, sem perder sua feminilidade, soube desempenhar o altíssimo papel que a Providência lhe reservara na sociedade.

Esposa e mãe exemplar, delicada, feminina, sempre se arrumando bem e se preocupando também com o exterior, tratou com maestria de, com seu marido, Fernando, o Rei Católico, conduzir os negócios de Estado, administrando a Justiça, presidindo tribunais, e mesmo galopando centenas de quilômetros durante as guerras contra os muçulmanos, para conseguir reforços e aumento no recrutamento de soldados. Isabel estava sempre presente por ocasião das entregas de fortes e fortalezas dos maometanos, e nesses episódios portava espada e armadura.

A Rainha Isabel conjugava sua feminilidade, sua vocação principal de mãe e esposa, os deveres de estado no lar, com os as coisas próprias do governo e da guerra, os deveres de estado na sociedade. E tinha sabedoria para discernir o que Deus queria dela em cada área de sua vida por ser piedosa. O título de Rainha Católica não era nela uma formalidade: rezava o breviário diariamente, assistia Missa também diariamente, confessava-se e comungava com frequência, submetia-se a um diretor espiritual, procurou reformar as Ordens religiosas e os mosteiros espanhóis, e proveu a América recém-descoberta a instâncias de sua Coroa de missionários, pregadores e Bispos para a conquista espiritual dos indígenas, além de promover a evangelização de judeus e muçulmanos, sempre deixando claro que se deveria proceder com amor e prudência, sem forçar os batismos.

Eu, Aline, devo cumprir minha vocação não só à santidade como ao apostolado. Foi o que prometeram, por mim, no Batismo, os meus pais, secundados por meus padrinhos. Foi o que reafirmei quando, adulta, me converti e fui crismada pelo Senhor Bispo de Pelotas em uma bela Missa celebrada no Carmelo, na praia do Laranjal. 

E cumpro TAMBÉM por este blog, por outros trabalhos na internet, pela participação em grupos virtuais, pelas páginas e perfil do Facebook, pelas outras redes sociais - veja minhas contas do Instagram, Twitter, Chicisimo e Pinterest. Cumpro TAMBÉM escrevendo meus textos, preparando meus livros, dando uma palestra ou um curso aqui e acolá. Evidentemente, como advogada, não deixo TAMBÉM de, pelo fiel cumprimento dos deveres de minha profissão, dar testemunho, nem que seja indireto, de Cristo e da Igreja. 

Todavia, o grande chamado, não só em santidade, como apostólico, que tenho é aquilo que me define: sou esposa e sou mãe. 

As primeiras almas que devo ganhar para Jesus, depois da minha, são as dos meus filhos, como fez a mãe dos sete irmãos Macabeus (cf. 2 Mac 7), e ajudar o meu marido a igualmente ser salvo. O meu lar não é apenas a minha Igreja doméstica, mas também o meu "campo de missão doméstico". 

Meu marido é católico - ele é quem foi usado por Deus, quando éramos namorados, para me levar para perto de Cristo e ser alcançada pela graça, convertendo-me -, nossos quatro (por enquanto) filhos são educados desde cedo na Lei do Senhor. Sem embargo, a missão não pára. É preciso sempre crescer na vontade de Deus, e por isso não somos, as esposas e mães, missionárias em tempo integral dentro das paredes de nossa casa.

Esse apostolado no lar nem sempre é explicitamente religioso. O próprio cuidado ao colocar na cama, ao proteger os filhos, ao fazer a comida na noite, a gerenciar os empregados domésticos, o modo como visto e me porto, são evangelizações silenciosas que calam fundo no coração dos filhos e do marido. E tudo isso acaba sendo irradiado para fora do lar. A vida da família cristã é sempre luminosa e a luz atrai. A beleza da feminilidade, a beleza natural da mulher, que tanto atrai o homem, deve ser um sinal da beleza de Deus. Não falo de beleza física somente: esta é somente um aspecto. A beleza a que me refiro está em um estilo de vida feminino profundamente arraigado em Cristo, em um lar bem gerenciado, ainda que com seus problemas e quedas, na vivência, mais do que na pregação, dos valores próprios da autêntica feminilidade. O Papa São João Paulo II nos convidava à reflexão: "Maria reafirma o sentido sublime da beleza feminina, dom e reflexo da beleza de Deus." (Audiência geral de 28 de novembro de 1995)

Meu trabalho com moda e com recato é um chamado do Senhor. Não deve, contudo, se antepor à grande e prioritária vocação matrimonial à qual respondi, com alegria, um sonoro "sim" em outubro de 2008 diante do altar de Deus. 

Embora não me considere exemplo de nada, pela infinita misericórdia de Deus acabo sendo muita coisa. Sou blogueira de moda. Sou aspirante a escritora. Sou palestrante e conferencista em temas de modéstia e feminilidade. Sou motivadora de muitas leitoras que dizem se inspirar no que faço. Sou confidente para muita gente que me escreve pedindo conselhos humanos e espirituais. Sou alguém que procura levar a Palavra de Deus e glorificá-Lo pelos meus textos, vídeos, hangouts, palavras, e simples bate-papos nas redes sociais. Sou, porém, mais do que tudo, educadora da fé dos nossos filhos, suporte espiritual dos membros da minha casa, e auxiliadora do meu marido como chefe da família e "sacerdote da Igreja doméstica". Sou, enfim, mulher. De Deus, mas mulher. Com tudo o que isso significa.


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6 comentários

  1. ontem li o texto e esqueci de comentar. Acho que você, Aline, sabe que é uma grande inspiração para mim e esse texto demonstra o senso de responsabilidade e consciência do que ela é como mulher e como blogueira. Sem dúvidas Deus dá os dons certos aos que a Ele seguem com sabedoria e humildade. Parabéns pelo blog e pela postagem.

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  2. Tháina, tuas palavras fazem pesar sobre mim uma enorme responsabilidade hehehehe. Agradeço muito pela confiança e peço que reze para que eu seja atenta à direção que Deus quer me dar.

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  3. Aline,

    Sou católica e penso muito fazer um blog que envolva modéstia, mas principalmente sobre aspectos da feminilidade em geral. No entanto, não quero criar mais um endereço qualquer que as pessoas simplesmente vejam repetidas coisas que podem achar em qualquer outra página. Queria trazer, talvez, o mesmo assunto, mas com novas perspectivas. Você pode me ajudar? Tem algum(ns) tema(s) que você considere pouco divulgado nesse aspecto da feminilidade cristã? Obrigada.

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  4. Querida anônima,

    Eu gosto da idéia de ter mais blogueiras católicas falando de moda, mas não saberia te indicar um tema para abordares sem te conhecer melhor, sem saber o que estudas, o que gostas. Não se trata de achar um nicho inédito, mas de um nicho que tenha algo de ineditismo e que conheças, que domines.

    Se gostas de te vestir bem e podes tirar boas fotos, por que não fazer um blog com teus looks do dia, como eu faço aqui, e alternar com textos de formação a partir dos teus estudos?

    Com carinho,
    Aline

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  5. Aline, que belo texto. Sou católica, profissional, moro em Uberlândia, no interior de Minas Gerais. Seu texto me anima, me fez entender minha missão. Obrigada pelo seu trabalho e apostolado.

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    1. Obrigada pelo feedback. É bom saber que estou ajudando. Continue por aqui.

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